Uma reflexão sobre a pontualidade e a consciência temporal

Jeanne Callegari, repórter da revista Vida Simples, empreende uma jornada sobre a pontualidade que a faz refletir sobre a maneira como encaramos o tempo, “nossa commodity mais rara”. A reportagem é um convite a pensar sobre nossa consciência temporal. O original está disponível aqui.

 

Abro a porta do pequeno sobrado devagar, tentando não fazer barulho, e subo as escadas. A ideia é não chamar atenção, mas não tem jeito: quando chego à sala, os olhares se voltam para mim. A aula de ioga começou há 10 minutos, perdi o aquecimento e interrompi a concentração dos colegas.

Quem nunca se atrasou, que atire o primeiro relógio cuco (na cabeça de quem o deixou esperando, evidentemente). Quase todos já passaram pela situação de chegar quando a aula, a festa ou a sessão de cinema já começou, e atrair para si os olhares (reprovadores?) dos presentes. Dependendo do caso, pedimos desculpas e/ou começamos uma longa explicação sobre o trânsito, a babá que não veio… A lista de desculpas é imensa. E, o que é pior, muitas vezes as desculpas são a mais pura verdade.

É meu caso. Não chego a ser uma atrasada patológica, que sempre deixa os outros esperando e perde os prazos dos trabalhos, por exemplo. Mas já perdi o avião uma vez, a consulta no médico em outra (por 10 minutinhos!), e não é incomum que chegue atrasada na academia. O engraçado é que, quase sempre, algo de fato acontece: esqueço a chave, o despertador falha, preciso esperar a entrega do galão de água. Em outras, demoro porque subestimei o tempo que levaria para lavar o cabelo ou pendurar roupas no varal. Mas, afora o voo, a consulta médica e a cara vermelha de vergonha quando todos olham para mim, nunca tive grandes problemas com isso.

Quando surgiu a ideia de fazer uma reportagem sobre pontualidade para a VIDA SIMPLES, decidi me candidatar. Seria uma boa oportunidade de fazer uma experiência e tentar ser mais pontual. Havia boas razões para isso, como o aumento da produtividade e a diminuição da ansiedade de estar sempre correndo. Além disso, é claro, poderia ganhar uns pontos extras com a família e os amigos. Mesmo em um país que não liga tanto para a pontualidade, como o Brasil, deixar os outros esperando não é bacana. Pergunte a um amigo pontual – sempre há alguns – como ele se sente ao ter que esperar durante meia hora alguém para jantar.

“Os pontuais têm uma visão péssima dos atrasados: acham que não respeitam o tempo deles”, diz Diana DeLonzor, autora do livro Never Be Late Again (“Nunca se atrase novamente”, não disponível no Brasil). Assim, defini meu plano: tentar chegar a tempo nos lugares, de preferência sem aquele jeito esbaforido de quem escapou por pouco de uma hecatombe. Mudar, enfim, minha relação com o relógio.

Dito assim, parece simples. O que eu não sabia é que, para ser mais pontual, teria que mudar a forma como encaro não só o relógio, mas o tempo, essa coisa tão difícil de definir. E que nossa relação com o tempo é muito mais complexa e intrincada do que eu imaginava. Ele é a espinha dorsal de nossas vidas, o esqueleto e o pano de fundo onde nossas histórias se desenrolam. E, apesar do ditado que diz “tempo é dinheiro”, nosso tempo é ainda mais valioso e raro, pois, uma vez perdido, não volta mais, ao contrário do dinheiro, que sempre pode ser reposto. Para ser mais pontual, precisaria encarar uma profunda análise do que o tempo significa, não só para mim, mas também para o Brasil e a sociedade.

Atrás da hora

Depois de alguns dias de experiência, em que não consegui chegar mais cedo aos compromissos, a primeira descoberta: a falta de pontualidade é um hábito surpreendentemente difícil de mudar. “Os atrasados costumam ser consistentes: chegam depois tanto em festas de aniversário quanto em velórios”, diz Diana. E mais: é um hábito, em geral, adquirido na infância, que acompanha as pessoas pela vida toda. Por diversas razões, que discutiremos mais adiante, algumas pessoas costumam estar sempre no horário, enquanto outras estão sempre atrasadas.

Mas não são só as pessoas que têm padrões diferentes em relação ao tempo. Também as culturas e os países carregam, em seu DNA, uma forma dominante de lidar com o relógio. Os suíços e ingleses, por exemplo, são pontualíssimos, o que é fácil de comprovar quando se espera pelo ônibus das 8h17 em Londres. São os povos monocrônicos, que encaram o tempo como algo que pode ser dividido em unidades pequenas e precisas. Em geral, são muito focados na produtividade e acham que desperdiçar tempo é algo negativo. Já mexicanos, filipinos e, é claro, brasileiros têm uma forma mais, digamos, “solta” de lidar com o horário. Algum atraso nos serviços e compromissos é esperado nesses países. É famoso o caso do presidente das Filipinas, Fidel Ramos, que chegou uma hora atrasado para a abertura da “Semana Nacional do Imperativo da Pontualidade e Respeito aos Direitos dos Outros”, em 1996. Ele acordara às 4h para assistir a um jogo de tênis e dormiu demais de manhã.

Somos policrônicos: para nós, de forma geral, o tempo é algo mais fluido, abstrato, em que várias coisas podem ser feitas no mesmo instante. Tendemos a valorizar mais as relações pessoais que a hora exata de um compromisso. Assim, se estamos nos divertindo com a família ou amigos, acabamos deixando de lado outras tarefas – é quase rude interromper um bate-papo caloroso com um colega para ir fazer qualquer outra coisa.

“A forma como pensamos o tempo é arbitrária. No fundo, estamos falando de valores culturais”, diz o psicólogo social Robert Levine, que estudou a maneira como 31 países se relacionam com o tempo e publicou os resultados no livro A Geography of Time (“Uma geografia do tempo”, sem edição no Brasil). Quando se trata do tempo, sempre assumimos que o nosso ritmo está certo e o dos outros, errados. No meu caso, por exemplo: moradora de São Paulo, sempre achei os londrinos que reclamam de um atraso de 5 minutos um pouco neuróticos, ao passo que demorar uma hora para ser servida em um restaurante em Florianópolis me parece de uma lerdeza infinita. Cada pessoa tem uma espécie de fuso horário interno, só seu, que determina a velocidade com que vive seus dias.

O tempo da natureza

Ao longo da história, também, a forma de encarar o tempo foi se modificando. Afinal, como exigir pontua­lidade se não era possível medir minutos e segundos? O relógio de pêndulo foi inventado em 1696 e ganhou popularidade no século 18. Antes disso, porém, as pessoas contavam com aparelhos como os relógios de sol, inventado há cerca de 5500 anos, e os de água, de 5 mil anos, ambos imprecisos e capazes de marcar apenas as horas. Na Antiguidade, por exemplo, era comum que se marcasse um duelo para o amanhecer ou pôr do sol, momentos em que era mais fácil chegar a um consenso sobre a hora. Esse é o chamado “tempo dos eventos”, regido pelo que acontece na natureza. Muitos países, hoje, ainda se orientam dessa forma; camponeses do Burundi marcam encontros para depois do momento em que as vacas pastaram, e em alguns locais os compromissos ocorrem antes ou depois da chuva, por exemplo.

Já no “tempo do relógio”, não importa se as vacas demoraram a comer ou se a chuva veio 10 minutos mais tarde: 4h são 4h. No passado, segundos, minutos e horas eram medidos conforme o tempo que se achava que o Sol levava para dar a volta na Terra. Mas como essa distância está aumentando e com a invenção dos relógios atômicos, que são os mais acurados do mundo, decidiu-se mudar a forma de medir a passagem do tempo. Desde 1967, segundo o Sistema Internacional de Unidades, 1 segundo tem a duração exata de 9192631700 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis de energia do isótopo césio 133. Muito específico? Pois os novos relógios atômicos são tão exatos que o mais acurado deles levará 3,7 bilhões de anos para perder 1 segundo.

Essa exatidão é coisa recente na história. O termo “punctual” (“pontual”) só passou a descrever alguém que estava sempre no horário a partir do século 17. Mesmo com os elegantes relógios de pulso, surgidos em 1850 e que pouco a pouco se tornaram símbolos de status, ainda não era fácil fazer as pessoas serem pontuais. Isso porque cada cidade ajustava o relógio de uma maneira. Em 1860, havia cerca de 70 fusos horários nos Estados Unidos. Vinte anos depois, eram 50. A confusão só acabou quando os donos das ferrovias, tentando unificar o horário dos trens (imagine chegar na hora para pegar um trem às 10 da manhã e descobrir que ele já partiu, pois o relógio do veículo estava acertado para a hora da cidade de origem da companhia), fizeram um movimento pela estandardização. Assim, em 1883, as ferrovias passaram a adotar os quatro fusos horários existentes no país hoje, definidos, assim como no Reino Unido, em relação à distância de Greenwich, na Inglaterra.

Com a Revolução Industrial e o surgimento das cidades, os novos instrumentos de medir a passagem do tempo se tornaram mais necessários: era preciso marcar a hora de chegada dos funcionários e cronometrar o tempo de cada tarefa na fábrica, para maior produtividade. Mas, para além disso, outro fator foi crucial na adoção do atual ritmo de vida no mundo ocidental: a religião. O doutor em teologia Max Engammare, autor de On Time, Punctuality and Discipline in Early Modern Calvinism (“Sobre o Tempo, a Pontualidade e a Disciplina no Calvinismo Moderno”, não disponível no país), diz que a Reforma Protestante ocorrida em Gênova, Londres e na França, no século 16, foi decisiva para o conceito de pontualidade que temos hoje. Para os protestantes, principalmente Calvino, os fiéis teriam que prestar contas de cada minuto de suas vidas a Deus. A forma de usar o tempo passou a ser uma questão moral e espiritual, e o lucro obtido de forma honesta, pelo trabalho, era encorajado. Nascia uma nova relação com o tempo, que era, basicamente, uma nova relação com Deus.

Aos poucos, moradores de países como Estados Unidos e Inglaterra passaram a ter cada minuto de suas vidas regulado pelos ponteiros dos segundos. O relógio, usado para marcar a pontualidade que nascia, passa a ser um novo deus. E assim chegamos aos dias de hoje. Nem todos os países, claro, evoluíram da mesma forma. Especula-se a razão de alguns povos serem monocrônicos, mais voltados para a realização e produtividade, enquanto outros valorizam as relações pessoais. Uma das teses mais curiosas sustenta que a causa é o clima: países mais quentes são menos pontuais, pois seus habitantes não precisam trabalhar tão duro para sobreviver no inverno. Outra diz que o tamanho das cidades e a industrialização têm algo a ver com isso: metrópoles e países industrializados têm ritmos mais rápidos que cidades pequenas. As pessoas costumam caminhar mais depressa e param menos para ajudar os outros nas ruas. No fim das contas, nenhum modo de vida é melhor que outro; ambos têm vantagens, seja a menor ansiedade em relação ao calendário dos policrônicos, seja a maior capacidade de realização dos monocrônicos. No ranking de Robert Levine sobre o ritmo de vida, realizado em 31 países, o Brasil foi o terceiro mais lento, atrás apenas de Indonésia e México. Os mais rápidos foram Suíça e Irlanda.

As razões de cada um

Descubro, então, uma das razões de os tambores que ditam o ritmo de meu relógio interno serem mais lentos: só de ter vivido no Brasil, já tenho mais chances de ter uma atitude mais relaxada quanto aos horários. Mas apenas isso não basta: afinal, se fosse assim, ninguém seria pontual no país. “As pessoas se atrasam por diferentes razões”, diz Diana. Algumas tentam fazer coisas demais. Outras gostam de viver em um ritmo mais acelerado, curtem a adrenalina do prazo final. Umas são impulsivas, vivem muito no momento presente e não conseguem adiar gratificações momentâneas em prol de uma recompensa maior depois. E há também as que têm a mentalidade de “professor distraído”, aquelas que vêm uma borboleta passar, se perdem em pensamentos e esquecem completamente o que estavam fazendo antes. Dos sete tipos de atrasados descritos no livro de Diana, esse é um dos que mais se parecem comigo.

Em comum, os tipos têm a capacidade de julgar mal o tempo que as coisas levam. Em um teste simples: escolha um livro, comece a ler e pare quando achar que se passaram 90 segundos. Pessoas pontuais costumam acertar o tempo, errando por poucos segundos. Eu parei de ler depois de 2 minutos e 14 segundos, uma diferença grande. Para contornar o problema, segui algumas das sugestões de Diana. Passei a cronometrar algumas atividades diárias, para ver quanto tempo, de fato, elas levavam. Com o despertador no banho, me espantei ao perceber que o tempo debaixo do chuveiro, que deveria ser de 10 minutos, se transformou em meia hora. O percurso para o trabalho de ônibus, que achava levar 10 minutos, leva ao menos 20. O melhor mesmo é ir de bicicleta: em 7 minutos consigo descer a avenida que liga minha casa à editora. Aos poucos, fui tomando consciência do tempo de cada coisa, tarefa que ficou mais fácil quando ganhei um relógio de pulso de presente. E, ao desenvolver essa noção, fui tomando decisões mais acertadas. Num dia em que acordei mais tarde, por exemplo, não fiz a maquiagem antes de sair para o trabalho, o que me permitiu chegar na hora que queria.

Controlar o relógio

Aos poucos, fui colecionando pequenas vitórias. No fim do ano cheguei a tempo, e com folga, ao aeroporto, para um vôo internacional – e nem precisei pegar um táxi para isso. Para um encontro com um amigo de manhã, antes do trabalho, atrasei apenas 5 minutos. “Atrasar-se é como qualquer mau hábito: quando você acha que superou, vai acabar reincidindo”, diz Diana. Um conselho valioso: nunca se planeje para estar no horário. Afinal, algum imprevisto sempre acontece; ou não encontramos a chave na hora de sair, ou o telefone toca, ou há mais trânsito que de costume (e quando não há?). É preciso planejar para chegar mais cedo, porque assim conseguimos estar na hora. Na pior (melhor?) das hipóteses, chegaremos mais cedo ao encontro. “Pessoas atrasadas odeiam esperar, e se elas passam a ser pontuais, terão que se acostumar com isso”, diz Diana. “O jeito é tratar esses minutos extras como um tempo para você, minutos preciosos para dar uma relaxada. Leve um livro, ouça música, adiante sua lista de afazeres.”

No fim das contas, ainda tenho muito a melhorar. Gostaria de chegar mais cedo nos compromissos, e não em cima da hora. Em algumas situações, não fui tão pontual como gostaria. Mas agora tenho mais consciência das consequências disso. O objetivo final é fazer o relógio trabalhar a meu favor: não ser escrava dele, mas saber usá-lo, sem ansiedades. “Às vezes pensamos que precisamos ser de um jeito ou de outro, rápidos ou lentos. Mas o truque é saber criar a melhor receita para você”, diz Levine. Saber trocar de ritmo, ou seja, ser pontual e seguir o relógio quando queremos produtividade, mas também saber relaxar quando é a hora. Para fazer isso, é preciso abrir as engrenagens de nosso relógio interno, descobrir como ele funciona e o que pode ser melhorado. Perguntar: quero realmente, ou preciso, fazer isso? Não é fácil responder, nem mudar. Mas, ao final, é uma questão de descobrir: o que é realmente importante na minha vida? E então sermos gentis com nós mesmos, nos darmos um presente: o controle do nosso próprio tempo.