Sergio é professor, pesquisador e ativista social. É um dos mais importantes estudiosos da obra de Paulo Freire no Brasil e autor de “O EDUCADOR”, perfil biográfico de Freire (São Paulo: Todavia, 2019. 251 páginas).

Com simplicidade e delicadeza, Sergio nos contou sobre a sua ideia de comunicação, sustentada na concepção de diálogo, que só se realiza com confiança e que envolve algo fundamental para Freire: a amorosidade.

“Sempre achei que a comunicação é essencial enquanto diálogo”, afirma Sergio, contando que essa comunicação se confunde muito com processos de aprendizagem de toda natureza e que este exercício tem que ser permanente. “Entendo que muitas vezes até pelo acelerado da vida e pelo padrão cultural da sociedade brasileira, a comunicação é vertical, uma rua de uma mão só”.

Ele afirma que é preciso vencer as barreiras para exercitar uma comunicação freireana; e conta que a grande experiência que teve nesse sentido foi em seu trabalho com Educação de adultos (Em 1974, Sérgio assumiu a direção do então curso supletivo de 1º e 2º graus, recém-criado no Colégio Santa Cruz – São Paulo). “A EJA nos apresenta mundos muito diferentes e aprendemos muito com isso”.

 

Ele conta que nas aulas no “Santa”, costumava chegar mais cedo, sentava no pátio e observava as pessoas chegando. “Elas sempre tinham histórias e contavam… a gente sabia um pouco da vida de cada um, como chegaram em São Paulo, de onde são, com que trabalhavam, o que gostam de fazer no fim de semana, de que tipo de lazer gostavam. Ao fazer conversas assim, você entra num mundo que não é seu e que é um espaço de aprendizagem”, diz.

 

Ele pensa que a chamada “comunicação de massa” vem aprendendo com o universo da digitalização a abrir espaços para espectadores. “Hoje, a gente vê os jornais e os programas de TV mudando formatos e abrindo para conteúdos enviados pela audiência. É uma tentativa de fazer uma comunicação como diálogo”.

 

Diálogo e confiança

 

Se não há diálogo, existe algo – e não tem nada de errado em não haver diálogo – , mas a comunicação só se estabelece na medida em que há diálogo com o outro: é o que defende Sérgio. Ele conta que existem momentos em que a transmissão é importante e tem seu lugar (como nas aulas expositivas), mas para haver comunicação é preciso sempre existir esta dupla mão.

 

O efeito do diálogo é de autoreforço: o diálogo constrói o diálogo, afirma Sérgio. E isso acontece na medida em que as pessoas vão ganhando confiança para o diálogo.

 

Ele dá um exemplo sobre a atividade do pesquisador. “Tenho uma orientanda que está fazendo uma pesquisa sobre o Benefício de Prestação Continuada e o quanto a educação se relaciona com a condição de pobreza. Ela foi fazer a parte empírica da pesquisa e não conseguia obter nenhuma informação das pessoas. Ela precisava ganhar confiança, conversar sobre coisas da vida, até construir um laço de confiança”.

 

“O diálogo constrói diálogo, porque há confiança. Há troca. Nesta situação, ela precisaria contar coisas sobre ela. Não pode só querer tirar informação do outro”, afirma. Ao mesmo tempo, ele adverte: “Diálogo é importante, mas não é suficiente. Falta teoria de um lado e prática do outro”.

 

Por isso – afirma – é famosa a frase de Freire “ninguém educa ninguém sozinho; as pessoas se educam em sociedade”, em diálogo com a realidade.

 

Para que o diálogo se transforme em construção de conhecimento, é preciso ter “pé” no real, na vida das pessoas. Freire traz realidade nos processos educativos de diálogo entre educador, educando, interlocutores. “É um diálogo que se constrói em cima da realidade. Não é só um achismo. E é aí que entra a teoria”, explica. Para Freire, a teoria é uma reflexão sobre o mecanismo de diálogo entre a pessoa e a realidade, a pessoa e o Outro.

 

Os elementos teóricos ajudam a compreender o produto do diálogo de maneira a iluminar essa troca para seguir em diante, fazer história, lutar por direitos. “Freire nunca foi uma pessoa alinhada a uma teoria específica. sempre foi uma pessoa que utilizou de determinadas teorias para resolver o problema da relação dele com a realidade, com a praxis. A praxis precisa de uma teoria que ajude na sua compreensão”, explica Sérgio. Para Freire, a teoria nasce do encontro com o Outro.

 

É deste ponto que advém a crítica de Freire à Universidade. “A universidade inspira conceitos, mas se as pessoas não conseguem usar estes conceitos para entender sua vida, eles servem como discursos, que são decorados para serem usados em textos. A teoria, então, tem essa vocação, de ajudar a compreender o mundo e é interiorizada, na medida em que ajuda a entender o mundo, sendo explicativa”.

 

Comunicação organizadora do comum

 

Sério aponta “uma questão de fundo” para Freire: o comunicador é um ser humano. Esta base vem do cristianismo renovador dele. Dá conta de que todo ser humano é capaz de aprender e ensinar, diferente de outros seres vivos, que vivem de outra maneira e tem outros níveis de aprendizagem, mas sem a amplitude do ser humano. “Se todo ser humano é capaz de aprender e ensinar, cada um vai construir sua história e sua vida com estes processos de aprendizagem e fazer história na medida em que a história de cada um somada à história de todos vai fazendo história em sua dimensão política.

 

E tem ideia da amorosidade, uma ideia fundamental para Freire. “Ele acreditava que é preciso respeitar o próximo, a natureza, o outro de maneira geral como seu interlocutor. Por isso que ele faz a discussão que faz sobre cultura. Ele mostra – fazendo diálogo com seus alunos no método – que todo mundo é capaz de cultura, de produzir conhecimento. Quando Freire foi pro Chile, ele começou a trabalhar com camponeses e aprofundou sua reflexão sobre o diálogo e a troca de saberes. Ele conta que os camponeses perguntavam ‘mas doutor, como vamos trocar saber?’ e ele fazia um jogo, onde os alunos perguntavam para ele sobre coisas”. Ele fazia perguntas que os alunos respondiam e os alunos faziam perguntas que ele respondia. E nem sempre ele sabia as respostas certas para perguntas como “sabe como planta batata baroa? sabe a influência do tempo para a produção do tomate?”.  “Freire começava mostrando que o conhecimento está nas pessoas, para valorizar a ideia do ser humano como capaz de aprender e ensinar, seja a forma deste processo uma aula, uma conversa entre pai e filho ou por observação (como acontece nas tribos)”.

 

Quando perguntamos a Sérgio se ele vê ligação entre a sua prática e a comunicação, ele conta que foi trabalhar com Educação de Jovens e Adultos quando a doutrina freireana já o havia tocado. “Estudei em uma escola de elite. Quando vivíamos a influência da teologia da libertação, chegaram os alunos da EJA, mais pobres, e a tendência era de uma postura assistencialista, como se fôssemos “salvá-los”. Vem daí minha conexão com esta comunicação do diálogo. Da relação que se estabeleceu para criarmos o curso de EJA numa perspectiva de diálogo”.

 

Sérgio conta que – em paralelo – descobriu o movimento social, as pastorais. Ele lembra um trabalho de educação popular que realizou no Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi) – organização da sociedade civil, que deu origem à Ação Educativa e ao Instituto Socioambiental . “Fizemos um trabalho com saúde, mapeamos as principais preocupações das pessoas de uma região da cidade, com experiencias construídas por elas mesmas. Da pesquisa, nasceu um banco de formas de cura baseado em formas de saúde popular. Aí, tem diálogo, conhecimento, aprendizagem, pesquisa de troca e informação e também de organização para a luta. Daquela atividade, saíram reivindicações para ter posto de saúde no local e outras pautas de ação política”. Sérgio conta que é desta prática no CEDI, na Ação Educativa, no curso de EJA que foi se moldando uma forma de agir. “Eu acho que a vida fica melhor assim”, diz.

 

E ancorado nesta afirmação, ele conta que precisamos hoje nos empenhar num esforço coletivo por uma comunicação mais dialógica. “Como sair da ideia de comunicação de massa para a ideia de um círculo de cultura, como Freire defendia? Porque faz todo sentido. E nesse processo de humanização, entra também o esforço de diálogo com a diversidade, porque não adianta ter só um mecanismo de comunicação pensado por pessoas brancas, de uma determinada classe social”.

 

Para encerrar nossa conversa, perguntamos para Sérgio que dica ele daria para um(a) educador(a) que deseja exercitar uma comunicação mais dialógica na sua prática educativa. Eu perguntaria o que ele aprendeu até agora”, ele diz. “Provocaria um esforço de olhar para dentro. Se um educador me contar que não aprendeu nada, é porque a coisa está ruim. Então, eu perguntaria: o que você aprende no cotidiano? O que seus alunos te ensinaram?”.

 

Conversar com Sérgio é sempre uma aula freireana sobre Paulo.

 

>>> Ele ainda nos contou que no começo da sua pesquisa, Freire escrevia sobre “comunicação popular” e somente depois de “Pedagogia do Oprimido” começou-se a se usar a expressão “Educação Popular”. Uma menção mais direta à comunicação acontece no livro “extensão ou comunicação?”, em que Freire faz uma crítica direta ao extensionismo (a ideia que de se leva conhecimento a uma pessoa ou a um grupo).

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