O encontro com o facilitador de processos grupais, Paulo Henrique Corniani, aconteceu em 18/8/2020 e dela extraímos os aprendizados que compartilhamos neste registro. E usamos encontro em vez de entrevista, pois esse é o grande mestre que rege a vida de Paulinho (para os chegados e para quem, de fato, o encontra). Depois de vozes femininas brasileiras, queríamos ouvir a voz de um homem que pensa e trabalha com comunicação e cultura, com uma pegada decolonial. Ele nos ofereceu seu olhar sobre sua prática com grupos e contou que, para ele, a comunicação é linguagem, é a forma de se expressar no mundo e que, portanto, ele não consegue diferenciar o que produz do que comunica. “Produto e produtor: um carrega um pedaço do outro”, disse. A coerência é o que rege essa relação entre produto e produtor, realiza-se na intensidade da intenção e dá certo quando se converte em prática. Provocador em suas falas, trouxe diversas questões interessantes para pensarmos juntos: “O que é a comunicação dar certo? É ela terminar e terminar acontecendo”. Ele acredita que “humanizar” a comunicação se trata de um processo de “regeneração”. “Quem se expressa com consciência sobre a sua intenção, começa a ter generosidade para a intenção do outro. E aí vem a escuta. Escuta se aprende. Como? Gerando interesse. É preciso que provoquemos interesse no outro. Se você não provocar seu interesse no outro, você só vai estar perante ele. E como se gera interesse? Se conhecendo”. Convidamos você a se encontrar com Paulinho neste relato (ora descritivo, ora literal, pois procuramos conservar falas suas que mais nos reverberaram reflexões):

Comunicação: usos e expressões

Paulo Corniani é facilitador de processos grupais com foco em aprendizagem e desenvolvimento humano. Atua com grupos com vários temas ligados ao autoconhecimento e dedica-se há quase uma década a um projeto autoral de coordenação de um grupo espiritual (não religioso). É Sociólogo de formação e pesquisador de Ontologia da Linguagem. “Tenho várias faces. Como me apresento depende sempre do contexto”, ele diz. A sua definição mais poética é “um homem latino-americano buscando entender as coisas”, e explica:  “Tudo que a gente precisa afirmar, é porque existe uma questão na afirmativa. O fato de ser latino-americano diz do que falo, do que penso, da minha subjetividade, da minha grupalidade, das minhas crises, vulnerabilidades e potências”.

Ele conta que o mestre regente da sua vida é o encontro, e que esse mestre tem na linguagem uma de suas facetas. “Toda linguagem tem o potencial da comunicação. A comunicação é uma desculpa para se conectar. As pessoas se comunicam para trocar. Toda a comunicação é um processo de linguagem, seja ela verbal ou não”. Nesse sentido, ele pontua: “É interessante falar de comunicação para humanos, sendo que não sei se a gente pode ser outra coisa, a não ser a linguagem. A comunicação é o ato de estar junto, de poder se reconhecer”.

Quando perguntamos sobre como ele usa a comunicação em seu trabalho, ele reconheceu a importância de uma visão mais “instrumental” da comunicação, porque, de fato, ela pode ser usada e deve ser estudada como fenômeno. E também somou outro entendimento do processo comunicativo, ao expressar uma fala que traz a exclusividade da comunicação humana: “Eu sou a linguagem. A minha expressão no mundo é a linguagem. Uso me expressando para o outro para poder produzir qualquer coisa. Para produzir uma realidade conjunta. Quando “uso” a comunicação para algo, é para construir e trocar algo que tem eu. Não é apartado de mim. Estou me expressando para produzir algo. A comunicação é minha produção. Não consigo diferenciar o que produzo e o que comunico”. Nesta visão de comunicação, ele reconhece a herança do pensamento latino, influenciado por Maturana e Echeverría: “Produto e produtor carregam um, pedaços do outro. O que é observado é observado por um observador. O que é comunicado é comunicado por um comunicador. Não existe isenção na comunicação. Portanto, eu “uso” a comunicação no meu trabalho me doando. Tudo que eu comunico vai comigo junto”, diz.

Espiritualidade por meio do Autoconhecimento

Um dos temas abordados ligados à comunicação foi a linguagem com a e da espiritualidade. Em seu trabalho como coordenador de um grupo espiritual, ele percebe que as conexões entre a comunicação e a espiritualidade é o autoconhecimento. Criando uma proposta ligada à ancestralidade e que acessa a transcendência por meio da imanência, Paulinho aponta para uma linguagem possível de acesso à espiritualidade: “Antes de você alcançar qualquer mundo espiritual você tem que alcançar este em que estamos. E isso é possível através do autoconhecimento. Conhecer-se é conhecer a forma como você se comunica, investigando seus diálogos internos, emoções e sentimentos. Eu trabalho espiritualidade como linguagem de autoconhecimento, que não exclui o transcendente. Mas eu não vejo outra maneira de transcender a não ser pelo imanente”. Ele brinca, tentando explicar: “É como diz aquele meme: não adianta fazer ioga e não cumprimentar o porteiro”.

Uma certa verdade alcançável pelo autoconhecimento seria um dos alicerces de uma comunicação autêntica. “Estamos tentando entender como nos expressamos “para fora”, nos olhando e entendendo como nos comunicamos conosco para depois fazer isso com o outro. O jargão que diz “Não importa o mensageiro, o que Importa a mensagem” é uma falácia para ele [e concordamos]. O calibre do mensageiro está ligado à mensagem. No processo de curadoria, por que estamos selecionando e falando do que estamos falando? Quem faz essa curadoria? Tão importante quanto o processo da comunicação é entender por que as narrativas estão na mesa. Às vezes quem está na curadoria tem mais poder do que quem está comunicando”, reflete.

Sobre coerência e autenticidade

Para Paulo, a comunicação é um processo intencional. “Para ser autêntico e verdadeiro, tem que ser intencional. Muitas vezes, quando eu faço uma fala mais incisiva, fico muito emocionado, mas sinto que a coisa só “azeda” quando a intenção não é verdadeira. Por exemplo, quando a pessoa está mal intencionada e fala mais “manso”, pode estar tramando algo. Então, eu escolho uma “forma” que vai me ajudar a chegar onde eu preciso. Por isso a intenção diz muito sobre a comunicação. Existe uma intensidade da intenção. Eu sei o que estou querendo, sei o aprendizado que quero causar e isso entra no fluxo da escuta. Por isso, temos sim que trabalhar formatos e isso é importante”. Sua fala nos faz revisitar a emoção que nossa comunicação expressa: a verdade (ou autenticidade) não está exclusivamente na mensagem ou no/a mensageiro/a, mas na intenção e intensidade que o/a mensageiro/a conecta e consegue expressar com e em sua mensagem – o que inclui até a agressividade. Não é porque é autêntico que o discurso será sempre dócil e tranquilo, pelo contrário, a coerência e a qualidade da relação abre espaço para a expressão mais autêntica possível.

Poder na comunicação

Ainda sobre a comunicação na espiritualidade, questionamos sobre seu como forma de submeter as pessoas à vontade do mestre. Ao que Paulinho respondeu: “Oprimir é um ato comunicativo. Você comunica naquela opressão. É comunicação, mas não é diálogo”. E conta que essa comunicação que não é diálogo acontece muito em grupos, quando os combinados prévios não estão bem estabelecidos: “As pessoas se projetam no grupo. [Por isso] Quando alguém está dependente de mim, eu dou um jeito de ser o anti-herói, expresso as minhas fragilidades. Deixo evidente que, sim, estou ali, naquela posição, mas talvez porque estou me olhando há mais tempo. A dica é “usar” o grupo para ir para dentro de você. Porque aí você entra no grupo e toma seu lugar no grupo. Aí, a grupalidade acontece”, conta ele como o grupo é veículo para o autoconhecimento sem autocentramento.

O facilitador nos explica que para a grupalidade acontecer, há duas qualidades de escolha importantes: a fala a partir da experiência e a escolha das palavras. No contexto do grupo espiritual, ele explica como imprime essas qualidades: “Como eu não tenho interesse em angariar fieis, eu não falo o que as pessoas querem escutar. Quando as pessoas me procuram para uma orientação, falo a partir da minha experiência. Muitas vezes não é o que a pessoa queria escutar e não é incomum as pessoas me levarem um problema esperando que eu tenha uma solução”.

E também no contexto do trabalho com grupos em geral, ele indica: “Eu prezo muito pelas palavras que uso. Por exemplo, quando trabalho com indivíduos, não uso a palavra “especial”. Especial é uma linguagem capital, curada para ser assim, mercantilista. Eu uso “único”. É como eu trabalho a questão da humildade. Não se trata de se apequenar ou de ser covarde. Assim como arrogância não é não se afirmar, mas sim se afirmar perante alguém que você acha que é menor que você. Isso é ser especial. Quando você se afirma como único, o parâmetro é você mesmo.” – aprofunda.

Humanização como postura e prática no caminho da libertação

A humanização, para ele, seria uma chave de entendimento para esta postura comunicacional, na medida em que se reposiciona a intencionalidade do que se fala. “Em vez de dizer “conquiste sua liberdade”, eu digo “pratique sua liberdade”, afirma. “É um processo de regeneração da comunicação. Precisamos regenerar e lembrar que – como disse o [Humberto] Maturana -, as palavras não são triviais. Precisamos regenerar a responsabilidade que a gente tem com as palavras. E isso não é não deixar as palavras orgânicas. Nem ser o tempo todo vigilantes com as palavras alheias. Porém, precisamos entender que quando se fala, se age” – acrescenta. Ele aponta que precisamos entender o fenômeno, que é importante, mas precisamos também olhar para o processo da comunicação, que se dá internamente, externamente e entre: “Através da linguagem e da conversa, a gente se modifica, modifica o outro e modifica o meio. E isso é linguagem como ação”.

Na prática, regenerar a comunicação seria unir a palavra com a ação. “A pratica é central no universo da espiritualidade”. Tomemos como exemplo a empatia e a comunicação empática: “As pessoas confundem empatia com sorrisos. Mas é preciso muita empatia para brigar bem. Não se trata de violência. Para se ter uma conversa madura difícil, é preciso muita empatia”, exemplifica.

Paulinho aponta que outra forma de colocar em prática esta regeneração é reconhecer que a nossa comunicação precisa respeitar a nossa cultura. “Nossa cultura [no Brasil] é a cultura da cordialidade. Precisamos prezar por algumas etiquetas. Intencionalmente. É possível entrar na forma das etiquetas intencionalmente sabendo o que se quer gerar. Eu quero gerar um calor na comunicação, afirmar “eu me importo com você”. Por isso, [por vezes] me comunico “pisando fofo”. Quando chegam no meu território, eu exijo que pisem fofo. Tem gente que não participou do drama comunicativo (de construção) e já chega querendo alterar algo. É a mesma ideia colonizadora de sempre. Sem atenção e empatia com o Outro. A pessoa chega, invade a terra e quer falar como os nativos devem agir” – ele sintetiza a perspectiva colonizadora que nossa cultura incorporou, à qual é possível combater com a linguagem e questionando os artifícios, palavras e modos de comunicar que usamos sem refletir.

O caminho da libertação, para ele, é o caminho da comunicação e da linguagem. E nesse caminho, é preciso sustentar a contradição. “Isso é a encruzilhada. Em grupos autônomos que querem se livrar disso os problemas são os mesmos, porque os grupos não conseguem sustentar a contradição”, nos conta Paulinho trazendo a referência d’A Pedagogia da Encruzilhada.

“A maior parte das questões são paradoxos e não serão resolvidas. [David Joseph] Bohm diz isso. É assim, por exemplo, com as questões identitárias. O cerne é sempre o paradoxo que existe entre indivíduo e coletivo. A humanização da comunicação é a harmonização entre o coletivo e o indivíduo. Harmonização não é equilíbrio, porque a harmonização é mutável e reconhece que não existe pureza. [E] a pureza não tem base.” – Paulo conclui nosso encontro com esse convite à reflexão.

 

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