Ana Maio é pesquisadora em comunicação e nos contou, em 8/9/20, sobre seus estudos e atuação com a abordagem face a face no ambiente corporativo. Seu interesse por estruturar essa abordagem temática começou nos idos de 2007, em seu trabalho como jornalista na Embrapa, no Pantanal. O chamado a vivenciar um ritmo e uma cultura diferente da que experimentava em São Paulo começou a movê-la em vários níveis. Entre 2012-16 faz seu doutorado em São Bernardo do Campo defendendo a tese sobre a comunicação face a face, com o apoio da instituição onde trabalhava. Na pesquisa, estudou também a comunicação mediada pela tecnologia e observou o quanto a comunicação mais humanizada, personalizada, voltada aos relacionamentos gerava mais conexão e engajamento na equipe.

Em 2017, ela segue sua jornada em São Carlos (SP), movida por um convite e uma questão familiar. Lá começou a descobrir o movimento slow, como o trabalho da italiana Anna Cortelazzo, que, através da slow communication, orienta os clientes dela no menos é mais, resolvendo inclusive rejeitar a entrada de mais clientes para prezar a qualidade de sua consultoria. 

Quando questionamos sobre o que é comunicação para Ana, ela trouxe em sua fala o conceito de Ciro Marcondes Filho; “é algo que te move a fazer alguma coisa” – diz, “existe a sinalização, a informação e a comunicação”. A primeira existe, está posta, indica coisas; a segunda chama a atenção para o conteúdo proposto; ; já a terceira chama a atenção e provoca mudanças por ressonância (é um acontecimento). 

O projeto de pesquisa de Ana coloca em evidência o lado mais humano, pois a comunicação face a face permite uma observação do não verbal, abrangendo uma análise do discurso do comportamento. Em seus treinamentos corporativos sobre essa abordagem, ela procura fazer as pessoas pensarem sobre isso. E na produção de comunicações internas (boletins), nota que as pautas mais lidas são sobre o lado humano, por exemplo, quando abordou talentos dos colaboradores.

Para ela, técnicas da comunicação face a face podem ser aplicadas tanto interna, quanto externamente, mesmo quando a conversa for mediada por tecnologias.

Ana aborda também a questão do espaço como fator que pode contribuir para a comunicação face a face: o espaço físico comunica muito, pois envolve como as pessoas vão ocupar esse espaço (distribuição, modo em pé ou sentado, tom de voz, movimentação da sala, adequação da vestimenta). A comunicação não verbal do espaço como cenário onde os seres vão se expor e interagir. Orienta, assim, o formato da conversa, o tom, quem terá lugar de fala e momento para isso.

Na comunicação organizacional, essa abordagem face a face pode ser usada de forma estratégica – conhecendo o indivíduo que vai falar para saber como interagir. 

Ana conversou conosco também sobre a artificialidade da comunicação, que se confunde na superficialidade da divulgação. Parece que os relacionamentos acabam ficando em segundo plano para dar lugar à rapidez, excesso de energia para resultados expressos. A comunicação face a face traz um paradigma diferente disso, e Ana percebe que cada vez mais há abertura para essa forma mais slow de olhar a realidade e a comunicação.

Como exemplo dessa prática, ela dá a dica: “não responder rapidamente mensagens, especialmente se o que você recebe for desagradável.” Ela também menciona o exemplo dado pelo Carl Honoré (no livro Devagar), de que para desacelerar ele cita o caso de um jornalista que começou a dirigir de forma diferente. Parar na faixa de pedestres, não passar o sinal vermelho e dirigir de forma mais consciente e slow pode ser uma forma de treinar essa habilidade e expressar também na comunicação.

Ana também traz a referência do TED Talk do editor Rob Ochard, sobre a necessidade de revolução do jornalismo com a abordagem slow para evitar disseminação de notícias digitais falsas ou rasas causadas por hiper-velocidade. A pesquisadora comenta que retomar assuntos que foram deixados para trás é uma forma de valorizar o jornalismo. Descobrir e retomar coisas que possam ser importantes também é fazer notícia nova, com profundidade e interesse. Nessa linha do slow media, Ana indica o filme “Cuba e o Cameramen”, sobre um cinegrafista americano que viajava à Cuba a cada cinco, seis anos para procurar as mesmas pessoas e produzir este filme que registra 40 anos de histórias reais. “Tem coisas que não adianta tentar ultrapassar a linha do tempo”, ela diz (e nós concordamos). Antes de finalizar, ela também trouxe um exemplo de comunicação face a face num projeto realizado no Hospital Santa Catarina, em que acontecem trocas de correspondência e videochamadas, além de crachás de identificação, para garantir a humanidade das relações entre paciente e equipe de saúde, com afeto.

Ana Maio tem uma vasta produção acadêmica em torno da comunicação face a face. Indicamos aqui um de seus artigos, que sintetiza sua tese de doutorado:

Comunicação face a face nas organizações em tempos de sociedade midiatizada. Organicon, v. 13 n. 24 (2016): Relações públicas: dimensões e práticas

Como citar: MAIO, Ana Maria Dantas de. Ana Maio e a comunicação face a face no ambiente organizacional. [Entrevista concedida a] Carolina Messias e Michelle Prazeres. Projeto Humanizar a Comunicação. São Paulo, DesaceleraSP, 24 set. 20. s. p.

 

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