Ana Erthal é professora, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da ESPM Rio e autora do livro A Comunicação Multissensorial, que traz a síntese de sua pesquisa de mais de uma década sobre uso dos sentidos como estratégia de comunicação. Entrevistamos a Ana, via zoom, no dia 11 de agosto, terça-feira, à tarde.

Com olhar de pesquisadora acadêmica que também pratica comunicação nos múltiplos fazeres profissionais, Ana falou da dificuldade de olhar a teoria do que é a comunicação hoje.“Estávamos acostumados a entender a comunicação como coisa do emissor, mas hoje tem uma participação ativa do receptor, sobretudo com as redes digitais” –  ela aponta. Nesse contexto, surge a necessidade de reciprocidade entre quem fala e quem escuta. Uma fala que traz verdade para convidar a uma escuta de verdade também.  “Tem a ver com a disposição de quem fala”, não se trata apenas do que é a fala (conteúdo) em si. O conteúdo que sai do emissor tem que ser claro e transparente, não adianta ser um jargão muito complexo que não vai conectar. “É sobre falar e ser ouvido, no ambiente da família, do trabalho e dos estudos.”

A autoralidade soma como uma característica importante da comunicação com essa qualidade de autenticidade e legitimidade, pois integra o que já fizemos, lemos e fala da experiência. A professora traz exemplos de sala de aula em que jovens muitas vezes não estão sabendo se colocar com a própria voz. Há muito ruído, que impede que a pessoa aprenda a ouvir o outro e a si mesmo na interação. Não compreende quando o outro não ouve, por vezes fingindo que ouve.

A comunicação se torna um jogo tão envolto de símbolos, para além da linguagem verbal, incluindo humores, código gestual, que acabam gerando incompreensão. Há que cuidar da escolha das palavras com clareza e simplicidade, como se fossem flores no jardim. Humanizar a comunicação, na visão de Ana, é sentir-se próximo, cuidar do que cria essa maneira de interagir entre mim e o outro.

A escolha das palavras somada ao conjunto de símbolos que fazemos uso dizem tudo sobre nós. Envolve como vamos nos colocar, e é cada vez mais importante aprender a se colocar, discutindo inclusive tema delicados (e tabus), como política e religião. 

O estudo de Ana sobre a sensorialidade na comunicação mostra que os estímulos sensoriais têm dito muito mais que as narrativas, pois atravessam a gente sem pedir licença. Diferente das narrativas, que demandam elaboração do receptor para gerar entendimento, cores, sons e sabores comunicam automaticamente afetos positivos e negativos em nós, pois convocam memórias e sensações. A nossa percepção dos cheiros, por exemplo, nos atravessam quatro vezes mais rápido que a luz, podendo gerar uma série de emoções: conforto, segurança, irritabilidade, nojo… Também são muitos os estudos sobre o efeito das cores e dos sons no comportamento humano, na forma como modelamos nosso comportamento, sobretudo no campo da Publicidade. Ana alerta para um uso indevido desses elementos: “as pessoas são enganadas duplamente, pela veia sensorial e pelo discurso narrativo” que as induz ao consumo irrefletido. E ela também traz o benefício de resgatá-los em nossa comunicação de forma a recuperar nossos sentidos, por exemplo, o tato, que atualmente se tornou um vilão no contexto pandêmico. O quanto desacostumar nosso tato pode influenciar na nossa forma de estar em interação conosco, com o outro e com o mundo? Outro sentido que merece ser recuperado em sua graça, segundo a pesquisadora, é a audição, por meio da percepção de nossos humores diante da paisagem sonora que se apresenta. A tendência atual do ser humano de buscar se isolar dos ruídos externos, especialmente nas grandes cidades, nos fazem perder o contato com essa paisagem sonora.

Sobre o uso mercadológico da comunicação, Ana comenta que gostaria que as pessoas tivessem uma formação crítica, para recuperarem os próprios sentidos e poderem questionar o impulsos que as estão atravessando sobretudo no consumo. Ela comenta um exemplo de pesquisa chinesa sobre uso de aromatizante em ambientes de trabalhos com a finalidade de torná-los mais produtivos, sem refletir sobre a sustentabilidade psíquica, física e emocional das pessoas com o excesso de produtividade.

 “Comunicação humanizada é se colocar no mundo como humano”, afirma. Ela conta que se conecta conecta com o termo “comunicação humanizada” pela pele, pelo modo como nós, seres humanos, estamos no mundo como humanos e, como tal, precisamos de contato, proximidade, toque, estar junto. Desde bebê, desenvolvemos uma série de coisas em nosso organismo por conta do toque de quem ocupa o papel de mãe, principalmente.

A pele traz tema do acolhimento. A relação humana acontece também no corpo, no estar presente, e ter este ponto de contato (a pele) com o outro como possibilidade de estar aberto para ouvir e conversar. “Se você não percebe seus sentidos, você está se desumanizando, pois está perdendo o que só você tem”, Ana comenta sobre os desdobramentos da falta de sensibilidade na comunicação.

Quando questionamos sobre práticas de comunicação multissensorial, a professora indicou que hoje ainda a maioria das intenções são voltadas para o consumo. Como práticas mais humanizadas, traz os exemplos de uso de cores e música em hospital que cuida de pacientes em tratamento com câncer como forma de modular um comportamento menos pesado e mais acolhedor às pessoas que circulam no ambiente; também comentou sobre uma praça que era tida como local perigoso por ser pouco iluminada e frequentada. Nesse local foi feito um processo sensorial, incluindo paisagens sonoras, iluminação, rampas de skate – tudo contribuindo para mudar a relação que as pessoas tinham entre si e com aquele ambiente. 

Por fim, Ana Erthal nos convidou a refletir sobre o próprio espaço das casas, que costumavam ter jardim na frente para bloquear odores da rua e perfumar a entrada, mostrando como essas paisagens olfativas influenciam nossa relação com o lar e com as pessoas que circulam e ocupam esse ambiente.

Como nossos sentidos tem apoiado nossa comunicação? Como podemos usar a comunicação multissensorial a serviço de fortalecer nossa humanidade?

 

 

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